sábado, 26 de dezembro de 2020

A sAGrAda FaMíLiA / conto de natal


Tarde fria. Esplanada deserta. Na mira de um reconfortante café, escapo-me para dentro do bar. A outra opção seria pegar na chávena e tomar o café em cima de uma parede banhada de sol.

Fito S. José recortado num pequeno cartão e, religiosamente, colocado sobre o balcão. 
— Ofereceram-mo agora mesmo!” esclarece agradecido o homem do bar. 

Se há coisa errada no ser humano, um bom exemplo é a possibilidade de proferir palavras sem antes as refletir, e escapam-me, atrevidas, alegres, esvoaçantes pássaros de janela 
aberta
— É o símbolo dos bons cabrões!” exclamo de olhos postos no padrasto mais exemplar e famoso do mundo.
O homem do bar empalidece perturbado 
— Como?” 
Atabalhoado, tento desenvencilhar-me do adjetivo, título, atribuído ao santo, mas que tão descuidadamente se aconchegara ao homem do bar. A sua esposa, boa senhora, trabalha longe, e nem todos os fins de semana vem a casa. Ele faz-se a tudo onde haja indícios de seios, ou saias, mas isso não obsta a que não seja ciumento como todos os outros.

Uma fração de segundo, por vezes, é uma eternidade!, impensável perdê-la, e as palavras, agora tentando refleti-las, não me saem tão em jorro quanto desejável na tentativa de compor uma situação à beira do descontrolo. 
Por muitas conquistas que o sexo feminino tenha alcançado, chamar cabrão a um marido, mesmo em quadra natalícia, ronda ainda algum perigo. 
O homem exige melhor explicação, urge avançar 

— Não leu na Bíblia?” 
— O quê na Bíblia?” 
— Que o Espírito Santo fecundou a mulher de S. José?” 
— E daí?” o cérebro dele parece ter parado na palavra cabrão. 
— O S. José é cornudo!” 
Todo ele flutua, agora subitamente livre de um grande peso, o peso dos cornos de um bom cornudo, verdadeiro santo, cujo exemplo de pouco tem servido 

— A santa alma adotou a criança sem protesto algum quanto à sua conceção, Como todos os não santos deveriam fazer!” 
Sorri aliviado o barman 
—  Aah! ..., Pois é!” 

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