Quando me começaram a cair os primeiros fios de cabelo, precisamente no alto da cabeça, onde os padres acharam, por muito bem, pôr a coroa a disfarçar essa lacuna do criador, recorri a uma farmácia. Sempre gostei desses médicos formados pela praxe do dia a dia com os clientes.
Assim, um farmacêutico todo careca, exceto na teimosia daqueles alguns pelinhos junto às orelhas, confessou-me que ainda não perdera a esperança de um dia se ver de crânio repovoado de cabelo.
Não é lindo?
Imaginei-o de prolífera e rebelde cabeleira a tombar-lhe aos olhos. Ele a afastar a desavença peluda, e gostei. Logo aderi à esperança dele, até à data, sem sucesso, mas nunca a perdendo ou descurando.
E assim fui cultivando esperanças pela vida afora. Confesso que a única esperança que ainda não cultivo é a da vida eterna, e isso por ter passado um período maravilhoso que só terminou quando nasci. Ou seja, até nascer, e passar a existir como a tal entidade humana.
A propósito, você ainda se recorda de como era antes de ter nascido? Há gente que esquece. Se for esse o seu caso, não se preocupe, não é grave. Nunca perca é a esperança de um dia se vir a recordar, porque, garanto-lhe, foi lindo demais! Tão lindo demais que até desconfio seja igual a essa tal idealizada, sonhada, desejada, implorada vida eterna, tão prometida a todos que se portarem bem por cá, e até aos que fazendo o mal se arrependam a tempo.
2016-11-07

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