Quando chega a casa sente-se invadido de tamanha tranquilidade, necessidade de
silêncio, paz, de estar só, que se entrega totalmente à cama.
Que beleza, deleite, essa serenidade a invadi-lo qual sinfonia levando-o a
céus paradisíacos!
Algo de grandioso e belo
lhe está a acontecer, possuindo-o, ultrapassando-o num sentir jamais imaginado.
As palavras que procura para descrever o momento, escapavam-se-lhe dando lugar
aos sentidos.
E, o mais curioso é que não sente necessidade da presença de ninguém a seu
lado para nada, nem pretende. Aquela paz profunda, celestial, inimaginável, é a
perfeição. Tudo o que necessita para se sentir pleno, está ali.
Belisca-se, não sonha, está acordado.
A luz do dia seguinte
chega, mas falta-lhe clareza para uma explicação sobre aquela paz repentina,
tão estranha. Terá apenas sonhado?
Inclinado a reflexões como
é, acha, contudo, cedo de mais para tentar compreender o fenómeno.
Começa a pressentir...
O seu sistema nervoso, assente em apurada
sensibilidade, ante tamanho sofrimento que lhe fora impingido desde a sua
chegada, a acrescentar ao que de cabeça perdida lhe fizera abandonar a casa em
Lisboa, mais a feroz conduta da Naturalista, explodem nele numa necessidade de
paz celestial, silêncio e isolamento tão grandes que se aproximam de um
complemento de perfeição.
Mas, não tem de esperar
muito. Os sofrimentos, quando demasiado dolorosos, não desaparecem em milagres
como o que vivera. Nem nunca se vão sem deixar a suas marcas. E, aí estão eles
acoplados num padecimento tão cruel como nunca sentira algo em si.
Mas ainda só agora iria
verdadeiramente começar...
*
A médica diz-lhe que
apanhou uma depressão ...
— Vamos iniciar o
tratamento já! Esta zona é muito pródiga a depressões!”
Hildengardo já tinha ouvido, por alto, falar em
depressões, mas não ligara.
Extrato do romance "O ROMANCE"
joa d'Arievilo

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