segunda-feira, 6 de agosto de 2018

A IRMÃ DEORETE



Fragmento do meu romance "Palavras à Chuva" ainda em curso, que ao rever, salvo as naturais influências pessoais, me surpreendeu pela sua beleza.
Nenhum de nós consegue permanecer uma entidade que mantenha continuamente a mesma emocionalidade, poesia, fluidez, profundidade, capacidade criativa em cada espaço e tempo. Assim, saber escolher o momento ideal para se conceber algo, é, sem dúvida, um dos segredos da criação.



A IRMÃ DEORETE

— Deus não dorme” dir-lhe-ia, decerto, a serva de Deus e das almas sofredoras se ele lhe falasse do penar que o afastamento da amiga Hilneia lhe causa, e do renovado bem-estar, de cada a vez que a encontra a ela, freira, no seu todo de paz só possível a quem vive acima das paixões terrenas.
— Não sou religioso, Os conhecimentos adquiridos conduziram-me, Sem grandes sobressaltos, Ao pecado!” esboça um sorriso parecendo querer amenizar.
Ela tenta interagir, mas já ele parece redimir-se
— Ai, Mas sinto uma brisa tão bela e reconfortante percorrer-me de baixo a cima, De cada vez que estou ao pé de si, Irmã Deorete, Que me apetece deixar-me ir consigo pela fé!”
Ela sorri na sua tranquilidade de crente, mas só Deus sabe, que ela na sua pureza sempre Lho confessa, bastando sentir-se em pecado, o quanto de humano sofrer não lhe brotará da sua instintiva e natural essência de mulher, porque a energia que explode no vulcão é a mesma que gera a vida
— Mas o conhecimento não deve, Nem pode, Ser incompatível com a religião, A fé em Deus. Porque senão, O que seria de nós?”
Ele não pretende de modo nenhum arrebatá-la da sua religiosidade fantástica que a conduz à eternidade, à compensação de todo o sofrimento pago por ter nascido.
Na verdade, toda a imaginária conceção religiosa em que ela acredita, partilhada por milhões de almas de todas as gerações e lugares, desde o aparecimento dessa relíquia que é a inteligência, tem o sentido de tornar mais suportável toda a brutalidade que o ato de viver comporta, mesmo que mesclado de alguma consciência.
Mas, mesmo assim, ele não resiste ao gracejo
— A irmã Deorete lembra-se de como era antes de ter nascido?
— Se me lembro de como era antes de ter nascido?” a expressão que se segue, apesar do silêncio, é de uma repreensão interrogativa tão chapada no conteúdo que facilmente se intui “Mas isso é pergunta que se faça?” ao mesmo tempo toda ela é plena de graça; enquanto ele só a muito custo sustém a impetuosa gargalhada. “Portanto,” continua a freira “Mas, Se ainda nem existia, Não me posso lembrar de nada, Não acha?”
É exatamente essa a réplica espicaçada e aguardada por ele, pelo que, de resposta pronta à ponta da língua, não hesita
— Claro que acho, Porque é exatamente o que nos vai acontecer depois de morrermos, Não nos iremos lembrar absolutamente de nada!”
— Nem pense! Que horror!” riposta, quase gritando, sem espaço algum à afirmação dele, ou a qualquer outra hipótese, mesmo no campo comum do chiste que o seja “Depois de morrermos nunca mais nada será igual. Para isso Jesus Cristo veio ao mundo, Para nos conceder a vida eterna!”
A convicção dela, toda assente numa vida de devoção, obediência, e trabalho, sem qualquer rebeldia para refletir e investigar outra hipótese, tornou-se em algo demasiado sério para se brincar, ou tentar destruir.
De repente, ele estremece, tem toda essa consciência que nos faz aceitar, ou calar, por respeito à convicção do outro, mesmo sabendo que o outro estará errado.
A vida não se faz só de verdades. Sendo a mentira, tantas vezes, toda a razão que pode justificar uma vida inteira vazia de sentido e calcorreada de sofrimentos.
Cede, pois, entrando num estado de falsa anuência para não beliscar a razão de toda uma vida, e de sonho, assente na religiosidade da boa senhora.
Ela toma essa atitude pela compreensão lógica do frágil pecador falho de fé, que ante a força suprema da palavra de Deus, é iluminado.
Abençoada seja toda a mentira que leva à fé de uma recompensa para toda a desgraça
— Então, Teria alguma lógica nós nascermos e vivermos com tanto sofrimento, Tanta fatalidade que vai por esse mundo afora! E morríamos e, Pronto. Tudo acabava como se fôssemos meros animais irracionais? Ou seja, Como você disse, Regressávamos ao tal estado da não existência como se nunca houvéssemos nascido!”
— Tem toda a razão, Sem dúvida alguma!” aqui ele não mente, porque a vida não tem mais lógica, ou finalidade, que a explosão da lava no vulcão, sendo apenas o consequente e seguinte passo.
A freira Deorete ao sentir-se compreendida e aceite na bela e fantasiosa mentira que, tão insciente como fervorosamente, prega como verdade, toda ela se transfigura numa personificação missionária ao encaminhar mais uma alma perdida.
Por sua vez, ele também não duvida do quão bem empregue é a sua consciente mas fingida concórdia, porque um homem não vive só de verdades, e
 
— Abençoados os inocentes que tão ingenuamente se deixam enganar e enganam os outros, Porque deles é o Reino dos Céus!”
Pensa tão baixinho para si, no medo que ela intua algo, que mal chega aonde o silêncio é o maior senhor de todos os entendimentos.

Não sendo uma mulher bonita, tendo em conta todo o desinteressado desconcerto dela ao seu físico, a beleza interior da freira Deorete não deixa de o atrair, levando-o ao desejo de a abraçar e acariciar. Não foram as servas de Deus, infelizmente, tão restringidas, banidas nos afetos, e Hildengardo deixar-se-ia embeber daquele meneio tão natural que atrai o homem e a mulher na continuação da espécie, porque o amor, esse sim, será eterno enquanto de vida a dois um fulgor houver.

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